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A pessoa Humana na perspectiva da Moral Cristã – Dom Francisco Vidal

Para que haja uma abordagem da Teologia Moral, requer-se uma unidade de fundo advinda de uma antropologia integral do humano, ou seja, “uma visão do home-pessoa na globalidade e unidade de componentes, aspectos, dimensões, valores, exigências: é esta antropologia o fundamento, a medida, o critério, a força para a solução que é proposta acerca dos mais diversos problemas…”. E, nesta visão integral, a ética “não é um elemento marginal e extrinsecamente justaposto à pessoa humana. Constitui, antes, um elemento essencial e estrutural de seu mesmo ser, enquanto a pessoa se define como ser ‘significativo’ e ‘responsável’, ou seja, como ser que possui estampado indelevelmente dentro de si um ‘significado’ (logos, ordo) próprio (…) e que é chamado a realiza-lo pela e mediante a sua ‘liberdade ‘responsável’”.

Dentro desta visão integral, ressoa muito forte o chamado de Deus em favor da Vida. “Escolhe a vida para que vivas com tua descendência. Pois isto significa vida para ti e tua permanência estável sobre a terra” (Dt 30,19-20). O núcleo central da missão de Jesus está igualmente bem expresso: “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em plenitude” (Jo 10,10). Estes textos abarcam a “vida nova” e “eterna”, incluindo todos os aspectos e momentos da vida do ser humano, dando-lhe pleno significado. Fica bem claro que “o evangelho da vida” está no centro da mensagem de Jesus” e este abarca o ser humano em todas as suas dimensões.

A moral cristã funda-se, com destaque, no valor incomparável da vida humana, o que torna o ser humano “o primeiro e fundamental caminho da igreja”. A vida humana tem, portanto, um valor incomparável, sendo inviolável; por isso, ela é inalienável. Deduz-se daí que se pode ser buscado o seu “bem verdadeiro e integral”. Ela é, por exemplo, muito mais do que um simples “material biológico”, muito mais do que um código genético ou um simples programa sequencial de um genoma a ser manipulado por engenheiros genéticos.

A vida encerra em si mesma uma sacralidade, enquanto dotada intrinsecamente de uma dignidade toda própria. Afirmar isto significa reconhecer um valor ontológico, sendo cada pessoa portadora desta dignidade a ser reconhecida em si, pois se justifica em si mesma. Teologicamente, esta visão ganha peso pela afirmação do ser humano criado por Deus à sua imagem e semelhança, possuindo assim uma dignidade e participação especiais na obra da criação.

O fundamento antropológico unitário, assumindo o ser humano em sua globalidade, e o apelo ético, pelo qual o ser humano é chamado a atuar pela sua liberdade responsável, apont para a pessoa humana como um fim em si mesma e a fonte do que é ilícito, em todo o percurso de sua vida. Assume-se a pessoa em todas as suas dimensões e o mais integralmente possível. É o mesmo que afirmar que a pessoa humana é um bem em si. A partir desta base, a ética, em especial a bioética, tem desenvolvido três princípios: a) Fazer sempre o bem; b) preservar a autonomia da pessoa, mesmo na condição de paciente; c) garantir a justiça, tanto no acesso, quanto na distribuição dos benefícios decorrentes do desenvolvimento e do avanço das mais diversas tecnologias. Subjaz a busca constante do bem integral do ser humano. Com isso, impede-se qualquer forma de abuso que signifique um reducionismo.

Superar-se, nesta visão integral, o dualismo que tende em opor, no ser humano, realidades como corpo e alma, matéria e espírito, que tem sedimentado uma visão negativa do corpo, do mundo, da matéria, da sexualidade etc., como se fossem o lugar do mal, porque abrigariam toda sorte de paixões e de vícios, enfim, de pecado. Este dualismo teve forte repercussão no cristianismo por influência, e se quisermos, por infiltração do neoplatonismo (grego) e, em especial, do maniqueísmo (de origem persa).

Contudo, faz-se necessário recuperar a visão bíblica, da cultura semita, para a qual o ser humano é uma totalidade unitária. Para falar do ser humano, a Bíblia usa palavras como basar (carne, corpo), nefesh (vida) e ruah (espírito). Existe um sentir unitário do Ser Humano, no sentido de um espírito corpóreo, ou de um corpo espiritual. Assim é a sua forma de ser, assim, foi criado por Deus. Assim temos uma sólida antropologia cristã na qual se funda o pensar ético-moral de dignidade individual do ser humano. O intento é captar a especificidade humana, dotada de uma dignidade que “transcende o nível dos fatos, dos dados científicos (biológicos e psicológicos) para chegar aos valores”. Aí esta o passo ético por excelência, que é o reconhecimento da dignidade da pessoa que se estende ao corpo e às partes, que engloba todas as dimensões do ser humano, que abarca todos os estágios de sua vida, desde o primeiro instante da fecundação até o último sopro de vida.

O imperativo primeiro permanece o não matarás. Dele desdobram-se todos os demais apelos éticos, bem como os engajamentos morais e decorrentes. “Pode-se dizer que a consciência da humanidade cresceu à medida que cresceu o respeito pela vida humana. O imperativo ‘não matarás’ resume de maneira sintética, na tradição ocidental/judeu-cristão, o valor da vida humana. Aqui está a expressão fundamental do próprio ethos humano, com valor universal”.

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